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Produção de biocombustíveis não precisa competir com a de alimentos
David Tsai aponta a solução: aumentar a produtividade e usar áreas já abertas e degradadas, evitando novos desmatamentos
Por USP - 01/09/2026


O País é visto como estratégico para expandir a oferta global de biocombustíveis sustentáveis nas próximas décadas –  Foto montagem feita pelo Jornal da USP – Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil


Os biocombustíveis têm sido um dos grandes destaques no discurso socioambiental global por sua capacidade de surgir como uma alternativa para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis e de colaborar com a redução das emissões de gases de efeito estufa. Um ponto a se considerar, porém, é que sua produção em larga escala depende de extensas áreas de terras hoje direcionadas aos cultivos agrícolas. A relação entre a produção de biocombustíveis e a produção de alimentos aparece, portanto, como um desafio.

David Tsai, engenheiro químico e gerente de projetos do Instituto de Energia e Meio Ambiente, explica que, como os biocombustíveis são produzidos a partir de biomassa (cana-de-açúcar, soja, milho, resíduos agrícolas e florestais), o Brasil tem um papel central nesse mercado, não fosse um dos maiores produtores mundiais de etanol e biodiesel, graças à alta produtividade da cana-de-açúcar, à experiência acumulada desde o Proálcool e à grande participação de renováveis na matriz energética. “O País também é visto como estratégico para expandir a oferta global de biocombustíveis sustentáveis nas próximas décadas.”

Ele alerta para o risco potencial de competição por terra entre biocombustíveis e alimentos, embora estudos mostrem que isso não precisa acontecer no Brasil, que possui cerca de 100 milhões de hectares de pastagens degradadas, dos quais parte pode ser recuperada para expansão agrícola e bioenergética sem avançar sobre florestas ou áreas de produção de alimentos. “Além disso”, diz Tsai, “ganhos de produtividade na agropecuária permitem produzir mais em menos área. O problema surge quando há expansão desordenada, monoculturas extensivas ou pressão indireta por desmatamento. Por isso, a discussão não é apenas alimento versus combustível, mas como organizar o uso da terra com planejamento, conservação ambiental e aumento de eficiência produtiva”.

Soluções

Nesse cenário, bem caberia a seguinte pergunta: quais seriam as principais soluções ligadas ao modelo de produção de biocombustíveis para conseguir reduzir a competição com a produção de alimentos? “As principais soluções passam por aumentar a produtividade e usar áreas já abertas e degradadas, evitando novos desmatamentos. Os estudos destacam a recuperação de pastagens degradadas, sistemas integrados como ILPF (Integração Lavoura – Pecuária – Floresta), plantio direto, agroflorestas e uso de resíduos agrícolas e urbanos para produção de biocombustíveis avançados e biogás”, argumenta Tsai. “Outra estratégia é ampliar combustíveis de segunda geração, feito de palha, bagaço e resíduos, reduzindo a necessidade de novas áreas agrícolas. Também são importantes critérios socioambientais rígidos, rastreabilidade das cadeias produtivas e políticas públicas que conciliem segurança alimentar, conservação ambiental e transição energética. Assim, o Brasil pode expandir a bioenergia sem comprometer a produção de alimentos.”

 

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